Espaço da Leitura

Galveston (Nic Pizzolatto)


Autor: Nic Pizzolatto

Editora: Intrínseca
Tradução: Alexandre Raposo
Páginas: 240
Gênero: Ficção
Lançamento: 09/06/2015

Galveston é um livro que a princípio lhe vende uma ideia errada. O nome de Nic Pizzolatto, e a questão de frisá-lo (como estratégia de marketing) como um dos criadores da série True Detective (afinal o nome Galveston em si não desperta interesse) além de algumas referencias ao livro como “um grande thriller noir” e coisas do tipo parecem se referir mais a True Detective do que propriamente a esse Galveston, que de fato possui tais elementos, mas como plano de fundo a obra.

“O passado não é real. É apenas uma daquelas ideias que você pensa que é real. O passado não existe, garota”.

Já que na verdade o livro é uma verdadeira de uma porrada do começo até sua última linha. Uma porrada na boca do estômago, diga-se de passagem, escrita de maneira brilhante por um surpreendente Nic Pizzolatto, agora também autor. Mergulhando o personagem central, Roy, em um mundo cinzento da depressão, Pizzolatto faz questão de transformar Galveston em um “road-book”. Tudo está presente: as descrições das estradas, personagens que surgem e desaparecem, mas acima de tudo, uma enorme imersão no mundo de Roy e sua convivência com as diversas situações que aparecem ao seu redor e que devem ser lidadas pelo protagonista.

“Tentei conceber como seria não existir, mas não tinha imaginação para tal.”

Na trama acompanhamos Roy, conhecido como Big Country (por causo de seu cabelo comprido e botas de cowboy) que descobre uma doença terminal em seu pulmão. Neste mesmo dia Roy já começa a relatar as consequências daquela doença em sua vida, como também dos interesses de seu chefe, Stan, que lhe ordena um serviço que na verdade parece uma grande emboscada.
O que de fato acontece, mas Roy consegue sobreviver, e após um confronto sanguinolento, escapa ileso. Além do protagonista só há mais uma pessoa viva no local, uma mulher (Rocky), e num ato impensado ambos acabam fugindo em direção à cidade de Galveston.

Escrito em primeira pessoa, Galveston é suficientemente capaz de despertar uma incrível imersão do leitor ao mundo de Roy. Suas cicatrizes emocionais são a cada página escancaradas e desenvolvidas de forma eloquente por um Pizzolatto absolutamente seguro da história que conta. Um thriller? Porque Roy foi traído por Stan? Porque Rocky estava lá? Galveston insere um tom existencial a um cenário coberto de expectativas, situações cruas e inesperadas e até certo ponto cruéis com o leitor. E uma boa dica que ofereço é procurar saber o menos possível sobre a plote do livro, que neste caso pode estragar boa parte da experiência de leitura e algumas escolhas interessantes da narrativa do autor.

“Ônibus e carros passavam lentamente, e a luz do dia refletia nos vidros e nas calotas. Por trás dos meus óculos escuros, parecia que eu estava no fundo do mar e os veículos eram peixes. Imaginei um lugar bem mais escuro, mais frio, e os peixes se tornaram sombras.”

A cada página nos confrontamos com a ideia central de Pizzolatto: Todos esses questionamentos objetivos pouco importam. O importante do livro é lidarmos com os temores de Roy, seu passado, seu futuro, o imenso peso que este sente em cada passo, em cada dia que se passa. E Rocky, na verdade, surge como uma figura de redenção para Roy, como se ambos dessem as mãos e partissem para uma estrada em busca da salvação conjunta.

Mas afinal o que de fato significa salvação? Sobreviver? Ou viver?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s