2015, Cinema, Críticas

O Regresso (2015)

The Revenant

Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu (roteiro), Mark L. Smith (roteiro), Michael Punke (romance)
Gênero: Aventura/Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 156 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Paul Anderson, Brad Carter, Kristoffer Joner, Lukas Haas, Brendan Fletcher, Joshua Burge, Robert Moloney, Grace Dove, Timothy Lyle, Kory Grim, Forrest Goodluck, Duane Howard

Sinopse: Hugh Glass, um caçador de peles do século XIX, é atacado por um urso durante uma expedição, após escapar com vida de um ataque de índios. Ferido, alguns homens do grupo decidem ficar para ajudá-lo, mas quando indígenas se aproximam, fica abandonado, quase morto, na vastidão selvagem das paisagens nevadas.


CRÍTICA

O século XIX reserva um período muito conturbado da história norte americana. Foi neste espaço de tempo que um ecumênico genocídio de povos indígenas tomou proporções gigantescas nas terras americanas, devastando culturas e povos que estavam enraizados no solo dos Estados Unidos. O motivo por trás do genocídio discorreu pela cultura de superioridade étnica americana, e a limpeza do oeste americano tornou-se uma política oficial do governo.

Tendo como base esse plano de fundo, O Regresso acompanha Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) e John Fitzgerald (Tom Hardy) que fazem parte de um grupo de caçadores de pele, liderados por Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Após um inesperado ataque indígena, o grupo perde uma parte considerável de seus integrantes e deve buscar um caminho de volta sem que outra batalha acabe com a vida de todos.

Baseado no livro The Revenant: A Novel of Revenge, de Michael Punke, O Regresso ganha estrutura graças ao brilhante roteiro da dupla Mark L. Smith e Alejandro González Iñárritu. Essa estrutura, aliás, é de fundamental importância já que, inteligentemente, O Regresso mais do que um “filme de sobrevivência e vingança” busca também elevar discussões a respeito do genocídio indígena e aprofundar-se no desenvolvimento de Glass e Fitzgerald. Falando primeiramente do antagonista, em acertada performance de Tom Hardy, é fundamental que O Regresso não busque vilanizar Fitzgerald apenas por sua natureza ruim, nesse aspecto o roteiro consegue entender a importância de motivar o personagem para que suas ações, assim que ele as julgue necessárias, sejam tomadas coerentemente com sua personalidade. Sendo assim, por mais que questionemos o caráter do personagem a respeito de suas atitudes, é absolutamente compreensível que ele as tome: Fitzgerald, como o mesmo frisa, é um sobrevivente em um mundo hostil, onde nitidamente se vê perdido em território desconhecido, e sua postura na expedição pela desenfreada busca por sobrevivência é justificável sob a ótica daquele indivíduo, ainda mais quando colocado em posição de desespero. A construção de Fitzgerald certamente surgiria como um potencial problema do longa, devidamente contornada por tais elementos consistentes do roteiro.

É assim que Hugh Glass, na visceral, devota e marcante atuação de Leornado DiCaprio tem sua construção de forma igualmente eficiente: Glass sabe do perigo que aquela missão representa principalmente a seu filho, não só pela ameaça iminente de um ataque indígena como também pela natureza dos próprios integrantes da expedição – e a conversa do mesmo com seu filho, ordenando que o herdeiro “não fale se quiser sobreviver” é precisa no enfoque da condição disposta em sua frente. Porque Glass é uma pessoa fria e amargurada por um passado castigado e revoltante, sendo seu filho o único elo capaz de mantê-lo vivo e com algum objetivo palpável.
Outro elemento que faz com que o roteiro de O Regresso destaque-se enormemente é que, ao contrário da esmagadora maioria das produções, o longa faz questão de abordar ambos os lados da Guerra entre os norte americanos e o povo indígena. Porque por mais que os integrantes daquela expedição tenham um racismo envolto de sua cultura, ali a busca iminente é pela sobrevivência e o não confronto das partes – Da mesma forma que a perseguição imposta pelo grupo de indígenas é devidamente motivada. Ou seja, Iñárritu não estabelece o “bem x mal”, e assim fundamenta sua não tomada de partido demonstrando inteligentemente que dentre norte americanos e indígenas existem pessoas boas e más, gentis e perversas, separadas apenas pela cor de suas peles e o histórico cultural de ambas.

Aonde enfim chegamos a Alejandro González Iñárritu, em uma direção absolutamente irretocável. Após o bem sucedido e fenomenal Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), o diretor emplaca mais uma obra-prima que certamente entra para a lista dos melhores filmes do diretor (mesmo que meu preferido ainda continue sendo 21 Gramas).
Iñárritu vem notabilizando-se por um aspecto bem latente em suas obras, que busca dialogar suas opções técnicas com os conceitos abordados em suas produções. Dessa forma, o posicionamento de sua câmera, por exemplo, ao estipular as conversas dos indígenas reafirma o contexto relatado acima, ao mesmo tempo em que se preocupa dar mais profundidade a Hugh Glass, usando e abusando da entrega física de DiCaprio. Fundamentando sua brilhante direção, Iñárritu filma com sua usual intensidade sequências de tirar o fôlego: A inicial; do urso; cachoeira e clímax são deslumbrantes. Apostando em inúmeros plano sequencias que variam brilhantemente o direcionamento do enfoque de cada integrante da batalha, Iñárritu possui uma busca incessante pela imersão do espectador na hostil batalha pela sobrevivência – e a exploração das locações é grandiosamente filmada (como as enormes árvores), representando o enclausuramento dos personagens naquele ambiente – e o trabalho de fotografia do gênio Emmanuel Lubezki é hipnotizante.

Entrelaçando aspectos técnicos e dramáticos, O Regresso é mais uma obra essencialmente visceral, mas preocupada em se aprofundar em questões capitais para a força de seus personagens, reafirmando que o Cinema de Iñárritu além de mostrar tem muito mais a que se falar.

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