Críticas, Séries

Bloodline (1ª Temporada)

A série Bloodline tem como principal característica a não distribuição de seus personagens centrais em grupos preestabelecidos como “do bem” ou do “do mal”, algo subitamente essencial para uma qualidade acima da média desta primeira temporada.

Elaborada por Todd A. Kessler, Glenn Kessler e Daniel Zelman (criadores de Damages), em Bloodline, acompanhamos a família Rayburn, dona de uma renomada pousada na Flórida e prestes a comemorar uma festa de 45 anos da propriedade. A família Rayburn é composta pelos pais Sally e Robert Rayburn (Sissy Spacek e Sam Shepard), administradores da pousada, e pelos filhos: o detetive da ilha John Rayburn (Kyle Chandler); o esquentado Kevin Rayburn (Norbet Leo Butz); a advogada Meg Rayburn (Linda Cardellini) e o filho mais velho Danny Rayburn (Ben Mendelsohn), considerado a ovelha negra da família, que depois de anos ausente, retorna a Flórida e traz consigo uma série de ressentimentos e segredos até então enterrados no passado.

Tendo como base as relações familiares dos personagens centrais e apresentando um crescente aprofundamento, em primeiro plano, da dupla Danny e John (este último narrador da história), Bloodline, como relatei acima, faz questão de pincelar com cuidado a personalidade de cada um deles, sendo preciso a descolori-los e emprega-los tons de cinza, dessa forma, não serão poucas as vezes em que as atitudes de ambos pendam para “aceitáveis” e “inaceitáveis” dentro de um contexto moral, trazendo por fim uma dualidade substancial a primeira temporada.

Com tudo a série não se resume apenas a dupla central, os personagens adjacentes (Meg, Kevin e Sally) recebem uma atenção considerável e necessária por parte do grupo de roteiristas, que se acopla perfeitamente com a direção da série, que busca uma abordagem crua – e mesmo que amparada em uma fotografia com cores fortes, oriundas do clima da Flórida – utilizando uma estética muitas vezes suja e empoeirada, como no singular momento em que determinado personagem está sentado numa máquina de lavar, apenas de shorts, enquanto remoendo sua depressão e insegurança bebe sua cerveja.

Bloodline ainda utiliza uma fragmentação de sua linha temporal, trazendo colagens de eventos futuros como função de criar um clima de suspense e consequentemente surpresa com o destino da família Rayburn, mesclando além destes flashforwards, os flashbacks – mesmo que esses últimos muitas vezes sejam utilizados de maneira exagerada, por exemplo, em momentos que beiram o constrangimento com personagens “se enxergando” quando crianças, o que destoa radicalmente da abordagem pés nos chão da série.
Outro problema – em escala semelhante, ou seja, sem grandes danos na trama em si – é o cretino artifício do “sonho do suspense”: Acontece algo surpreendente, mas na verdade… era um sonho!

E se uma série se propõe a trabalhar com as dimensões das personalidades das figuras que habitam seu mundo nada mais essencial que um elenco afinado, o que de fato ocorre em Bloodline, nas belíssimas atuações de Kyle Chandler, Ben Mendelsohn e Linda Cardellini.

Mesmo com o excesso de episódios (10 seriam um número ideal) Bloodline entrega uma ótima primeira temporada, apostando em uma trama de crescente angústia e complexa pela natureza muito bem elaborada e aprofundada de seus personagens, suas cicatrizes e cada passo obscuro a ser dado.

★ ★ ★ ★

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