A Chegada (2016)

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Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Ted Chiang (conto), Eric Heisserer (roteiro)
Gênero: Ficção Científica
Origem: Estados Unidos
Duração: 116 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma, Mark O’Brien, Russell Yuen, Nathaly Thibault, Joe Cobden, Julian Casey, Pat Kiely, Larry Day, Mustafa Haidari, Abigail Pniowsky

Sinopse: A Dra. Louise Banks é uma linguista que é recrutada por militares para desvendar as verdadeiras intenções de um grupo de invasores alienígenas. Conforme aprende a se comunicar com os aliens, ela começa a experienciar flashbacks que se tornam a chave para desvendar o propósito da visita.


Quem trabalha com crítica cinematográfica, ou acaba fazendo como um hobbie – como é o meu caso – constantemente acaba sendo confrontado com “Mas porque você faz isso?”, “Porque analisar a fotografia e trilha sonora de um filme?”. Pois bem, vamos por partes. Uma crítica cinematográfica não deve ser encarada como um veredito sobre o filme ser bom ou ruim, ela é “apenas” a visão do crítico a respeito daquela produção. Uma crítica de cinema não deve analisar conjuntos isolados de uma obra, como se estivesse em uma apuração de escola de samba, analisando cada elemento de maneira separada.

Tudo o que você vê numa tela de cinema deve ter um MOTIVO para estar ali. E o conceito da crítica é explicar como tecnicamente o autor da obra conseguiu empregar com aquilo, sua MENSAGEM. Porque basicamente toda obra tem no fundo uma mensagem, uma ideia do realizador, mas o Cinema é tão maravilhoso que não precisa ser uma ciência exata, porque se você, espectador, interpretar determinada mensagem em um filme, não fique preocupado se aquela era de fato a visão do autor. Uma obra de arte deve ser interpretada e apreciada, seja qual for sua origem. Já que ela será incitada pela experiência individual de cada um, que será estimulada pela TÉCNICA cinematográfica empregada.

Onde enfim chegamos, com o perdão do trocadilho, ao mais novo trabalho de Dennis Villeneuve. No começo do ano, ao analisar o excepcional Sicario: Terra de Ninguém, havia comentado sobre a “promissora carreira de Villeneuve”, entretanto me parece mais do que claro que o diretor já atingiu um patamar de realidade ao entregar outra obra-prima, este A Chegada.
Villeneuve tem como principal característica conseguir balancear seu primor técnico com uma tensão e dramaticidade potentes, imergindo por completo o espectador em sua trama. Porque o cinema é “imersão”. E Villeneuve é cirúrgico ao distribuir elementos concisos para sua armadilha emocional.

Roteirizado por Eric Heisserer (da refilmagem de O Enigma de Outro Mundo), baseado na obra literária “História da sua vida e outros contos” de Ted Chiang, A Chegada acompanha a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista que é recrutada por militares para desvendar as verdadeiras intenções de um grupo de invasores alienígenas que aterrissaram na Terra em doze diferentes regiões. A Dra. Louise deve saber se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar sua vida e a existência de toda a humanidade.

Tecnicamente A Chegada é um filme irretocável, transmitindo aflição e reflexão, graças a belíssima fotografia e estupenda trilha sonora que se aliam a grandiosa direção de Villeneuve, que busca uma interessante escolha na abordagem tendo como base o ponto de vista de Louise, fazendo com que nossa experiência soe tão melancólica, densa e introspectiva quanto a da personagem. O roteiro de Eric Heisserer ainda realiza relações interessantes com a Linguagem em si, nos estimulando, portanto, a realizar um paralelo com o próprio contexto do filme: A personagem de Amy Adams estuda e baseia seu trabalho no espectro e poder da linguagem, nos fazendo, portanto, relacionar com a linguagem do próprio filme, que busca em sua essência passar uma reflexiva e contemplativa mensagem.
Assim, trechos como “Precisamos ensinar a diferença entre uma arma e uma ferramenta. As coisas podem ficar confusas quando o mesmo objeto pode ser usado de ambas as formas” são cirúrgicos em externar o poder da linguagem, já que ela, seja com suas interpretações e/ou variações, pode se tornar um meio capaz de solucionar ou propagar conflitos (e a Torre de Babel é um direcionamento interessante dentro desse contexto, conforme certa passagem da bíblia nos mostra: “Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros” (Gênesis 11:6-7).

Suspiros….

Escrevia esse texto no final de novembro do ano de 2016, e faço licença para interromper minha linha de pensamento e realizar um doloroso paralelo que a todo instante, nos últimos dias, martelava em minha cabeça. Eu, Filipe, tenho três grandes paixões que se equivalem em importância: Cinema, Música e Futebol. E no dia 29 de novembro de 2016 o mundo foi abalado com a maior tragédia da história do Futebol, na verdade, a maior do ESPORTE: O trágico acidente com a delegação da Chapecoense, vitimando 71 pessoas, toda equipe, tripulantes e jornalistas (clique aqui). Por VIVER de futebol basicamente desde que me conheço por gente, me senti particularmente abalado, como se membros da minha família estivessem naquelas poltronas. Foram dias e horas difíceis com as fases do Luto (Negação – Raiva – Negociação – Depressão – Aceitação) vivenciadas de maneira dolorosa.
E você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o filme A Chegada. Pois bem. Tudo.

Porque até mesmo uma tragédia tenebrosa como essa fez com que TODO O MUNDO DO FUTEBOL se unisse, rivais dessem as mãos uns aos outros e pudessem se solidarizar ao Clube e principalmente as famílias dos 71 vitimados.
E no dia 30 de novembro o futebol presenciou, certamente, a mais bela e dolorosa de suas histórias: A conexão Medellín – Chapecó (clique aqui), com homenagem aos vitimados, é desde já o momento mais marcante da história do Futebol. E tudo isso acontecer no ano de 2016, onde a intolerância e raiva falam cada vez mais alto, e o ódio parece se misturar com o oxigênio inalado pelas pessoas, surge como uma fagulha de esperança. E o povo colombiano, de uma história tão sofrida, deu uma lição ao Mundo de que sim, ainda existe bondade e devemos cultivá-la, valorizá-la e protege-la quando a identificarmos.
E a moral de toda essa experiência chama-se AMOR. A solidariedade e companheirismo dos colombianos, assim como de todo o mundo do futebol, conversa diretamente com a mensagem do filme A Chegada, quase uma clemência por solidariedade entre o Homem, um chamado desesperado e esperançoso de que ainda é possível manter a fé na humanidade. E a união pós acidente da Chapecoense diz que sim, podemos ainda manter nossas esperanças.

E talvez por isso A Chegada, o acidente e suas consequências dialoguem tanto, mesmo que de maneira trágica, já que podemos dissertar sobre a necessidade de uma maior união da humanidade, que pareceu com o tempo se perder, numa sociedade que ao invés de tentar entender aquilo que não compreende, busca julgar e condenar.
Assim sendo, em uma experiência introspectiva e intensa, Dennis Villeneuve clama pela harmonia e integração como a resposta reflexiva aos questionamentos que indaga com extrema sensibilidade: “Você viveria tudo de novo por amor? ”.

E parafraseando a minha terceira outra paixão, a Música, nada mais justo que refletir com a canção Someone Special, da banda Poets of The Fall: “Em um Mundo que enlouqueceu, olhe além da luz, onde você menos espera, haverá alguém especial…”.

E lembrem-se, nossa única língua deve sempre ser o Amor.

★ ★ ★ ★ ★

3 comentários Adicione o seu

  1. adriana idalgo Ferraz disse:

    Concordo plenamente, um texto brilhante ,garoto prodígio ,sou sua fã.

  2. Aninha disse:

    Linda crítica, acredito fielmente que para o equilíbrio mundial, o que deveria prevalecer é o amor, a fraternidade entre os povos, onde atualmente isso não ocorre. Acontece que o verdadeiro sentido de estarmos aqui na terra, está se perdendo, que é vivermos o amor, o amor ao próximo, a compaixão e a misericórdia; A vinda de Jesus Cristo foi exatamente para nos mostrar este AMOR, um amor ÁGAPE e seus ensinamento deixam claro isso, “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”! Enquanto cada um não fizer a sua parte, abrir mão de ideologias impostas e olhar para o próximo como o teu irmão, viveremos tempos de guerras, de conflitos, de muita dor e tristeza.
    Nossa missão, promover a paz e o amor!

    Parabéns pela crítica, muito bem estruturada e fundamentada! Continue assim 🙂

  3. adriana idalgo Ferraz disse:

    Filipe tudo que a Aninha falou ,é o que penso tbm,amar a Deus sobre todas as coisas,se todo mundo pensasse assim o mundo seria bem diferente do que é hoje.

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