2016, Críticas

Animais Noturnos (2016)

noctNocturnal Animals

Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford (roteiro), Austin Wright (romance ‘tony and susan’)
Gênero: Drama/Suspense
Origem: Estados Unidos
Duração: 115 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Andrea Riseborough, Michael Sheen, Zawe Ashton, Jena Malone

Sinopse: Dona de galeria de arte é atormentada pelo romance de seu ex-marido, um suspense violento, que ela entende funcionar como uma referência ao passado.


CRÍTICA

A Arte tem uma substância particularmente estimuladora que a acompanha desde sempre. Seja um quadro, uma canção, um livro ou um filme, o artista muitas vezes necessita do estímulo necessário para que a inspiração tome forma, corra por seu corpo e seja catapultada em sua obra. Você já parou para pensar: Qual a sua inspiração?
Não é incomum, dessa forma, verificarmos que grandiosas canções, por exemplo, tenham sido compostas em momentos emocionalmente difíceis para seus compositores, que passeiam desde desilusões amorosas até o luto. Como se o veneno que corre em suas as veias se transformasse em combustível, transformando a experiência em um degrau para a construção da Obra de Arte.
E o ser humano é tão complexo que tanto a dor quanto o amor possam ser dois dos maiores estímulos para a criação da Arte. Mas esta é tão bela e lírica que por mais que sua origem tenha sido calcada na dor, sua mensagem pode atingir qualquer um de diversas formas e contextos diferentes. E não pensem que essa é uma via de mão única, já que a Arte age como figura estimuladora para quem a faz e quem a recebe. E especificamente isso a transforma em Arte.

Baseado no livro Tony e Susan, de Austin Wright, Animais Noturnos gira em torno de Susan (Amy Adams), uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward Sheffield (Jake Gylenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.

Animais Noturnos, mesmo que não explicitamente, gira em torno da Arte, de como é concebida e reflete emocionalmente na vida de quem a desfruta. Não me parece coincidência, dessa forma, que a personagem de Amy Adams seja uma negociante de arte, tão pouco que ao começar a ler o livro que seu ex-marido escreveu, coloque a figura do seu ex-parceiro como Tony Hastings, protagonista do romance, assim como se coloque como sua esposa (e a escolha da atriz Isla Fisher, pela semelhança com Adams, é cirúrgica nesse aspecto).

Tom Ford utiliza uma abordagem absolutamente diferente de sua estreia na direção, o também excepcional Direito de Amar. Se em seu trabalho anterior o diretor trazia vivacidade e paixão, inclusive de forma visual, como as variações de tonalidade quando os personagens se sentiam tocados emocionalmente, aqui em Animais Noturnos sua abordagem é radicalmente oposta: Fria, seca e violenta.
Assim, Ford constrói um filme dentro de um filme, e graças a uma montagem extraordinária, consegue conduzir as três narrativas (A vida de Susan quando recebe o livro; O começo de seu relacionamento; E a representação do livro escrito por Edward) com enorme agilidade, emergindo a cada instante a tensão dos personagens do livro e o crescente abatimento de Susan.
Vale destacar que a sequência da estrada, que dá origem ao livro lido por Susan, é uma das cenas mais tensas dos últimos anos, onde Ford isola a família visualmente, além da natureza perturbadora do grupo de Ray (Aaron Taylor-Johnson em grande atuação), aprisionando-os em um ambiente perturbador e angustiante, de tirar o fôlego.

Animais Noturnos ainda se revela no privilégio de contar com um leque de personagens pluridimensionais, que são aprofundados com extrema crueza por Ford: Amy Adams dá vida a Susan com extremo peso, ressaltando com seu talento o desânimo da personagem, ao mesmo tempo que contrapõe o romantismo e deslumbramento inicial – e percebam como Susan, na linha narrativa que aborda seu presente, utiliza vestimenta sempre de cores frias, além dos olhos esfumados de preto, que realçam sua devastadora melancolia, contrapondo-se com a garota esperançosa e romântica do passado. Ford é hábil ao também aprisionar Susan dentro dos remorsos de seu passado, utilizando para isso seu isolamento na gigantesca, vazia e silenciosa casa, sempre com penumbras, luzes apagadas e a escuridão tomando conta por completo do ambiente.
Jake Gyllenhaal, ator que cada vez mais vem se consolidando como um dos mais talentosos de sua geração, encarna Tony com uma enorme insegurança que posteriormente transforma-se em arrependimento e ódio. O sempre espetacular Michael Shannon converte o detetive Bobby Andes em uma peça a parte desse enorme jogo psicológico, edificando um personagem intrigante e aflitivo. Já Aaron Taylor-Johnson entrega possivelmente a melhor atuação de sua carreira, ao construir um Ray ensandecido e amedrontador pela natureza angustiante e psicótica a cada uma de suas manifestações.

Afundando seus personagens numa lama de traumas, remorsos e arrependimentos, Tom Ford enclausura o espectador numa rede psicológica intrigante de natureza hostil, utilizando uma estrutura em camadas atormentadora, julgando ainda sermos capazes de correlaciona-las, numa obra sombria de vingança e laços psicológicos imponentes, que sorrateiramente imerge quem o assiste numa claustrofóbica experiência e um curioso questionamento:

Qual a sua inspiração?.

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