2016, Críticas

Capitão Fantástico (2016)


Captain Fantastic

Direção: Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Gênero: Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 118 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Frank Langella, Kathryn Hahn, Missi Pyle, Steve Zahn, Erin Moriarty, Ann Dowd, Mike Miller, Richard Beal

Sinopse: Nas florestas do Pacífico Norte, um pai de seis crianças é forçado a deixar seu paraíso ao ar livre e ir viver na cidade.


CRÍTICA

Capitão Fantástico é um filme que discute sobre tantos assuntos que confesso ter pensado várias vezes antes de iniciar esse texto. Primeiro, lida primordialmente com um tema ainda desconhecido por mim – a paternidade – e partindo deste ponto, se difunde em inúmeros outros assuntos que tentarei abordar dentro dessa análise.

Escrito e dirigido por Matt Ross, Capitão Fantástico acompanha Ben (Viggo Mortensen), um pai de seis crianças, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.

Capitão Fantástico parte de uma premissa bem única, transcorrendo para os temas centrais que o diretor Matt Ross deseja discutir. Mas antes de tudo, preciso realizar uma pequena reflexão a respeito de como o filme foi recepcionado, principalmente no Brasil. O aspecto raivoso e de intolerância que habita recentemente o solo brasileiro, provindo substancialmente da má educação e formação, que geram o já conhecido e insuportável AAPF, Analista Analfabeto Político de Facebook (“QUANTO ESTÁ O VALOR DO DÓLAR??”) infelizmente já atingiu a obra, que está rotulada como “uma ode ao Comunismo”, “Chola mais e vai pra Cuba” e o que mais gosto “Capitão Petralha”. Deixando de lado a insuficiência de usar a massa encefálica destas pessoas, chega a ser deprimente que uma obra tão humana quanto Capitão Fantástico possa ser julgada e menosprezada pela intolerância, sendo ela, inclusive, um dos temas do filme. E esse foi um dos primeiros pontos que me fizeram questionar a realização desse texto.

E se um filme já consegue puxar um questionamento sobre intolerância já demonstra valores morais consideráveis. Porque Capitão Fantástico não busca entregar uma mensagem de “Façam assim”. Pelo contrário, o longa procura argumentar sobre o assunto, levantando pontos positivos e negativos sobre as indagações de Ross. Entretanto, o que parte do público – raivoso – parece ter esquecido (o diálogo) aqui se faz presente como a base existencial do projeto. Matt Ross emerge uma discussão interessantíssima sobre a paternidade: Qual o limite dela?
Pode parecer uma pergunta um tanto quanto desconexa, mas vejamos o exemplo do protagonista Ben, e refaçamos uma pergunta presente no longa: Um pai tem o direito de educar seus filhos como bem entender? Qual o limite?
Posso estar sendo prolixo, mas é bom frisar novamente: Percebam que Matt Ross não responde tais questões, apenas abre uma porta para entrarmos nesse interessante debate, deixando a cargo do espectador julgar e discutir sobre o assunto, não soando como propagação de dizeres sobre uma verdade absoluta – o que seria absolutamente incoerente dentro de toda abordagem proposta por Capitão Fantástico.

Ben, em mais uma irretocável interpretação de Viggo Mortensen, ao lado da esposa, leva seus filhos para morarem na floresta, abandonando a civilização, usando métodos únicos para educar seus filhos: Eles são submetidos diariamente a treinamentos físicos, leitura de livros e questionamentos a respeito. Percebam como Ben controla didaticamente a leitura de seus filhos, cronometrando o tempo que cada uma leva para ler, marcando a página onde cada um está e, por fim, o entendimento de cada sobre a leitura.
Assim, toda a percepção de mundo que seus filhos têm, resume-se basicamente ao que foi lido nos livros – quase todos de caráter filosófico – e nisso sintetizamos a importância do conflito do filho mais velho, Bodevan, interpretado de maneira irretocável por George MacKay.
E notem como outro determinado conflito gerado no segundo ato do filme é preciso ao ressaltar duas visões a respeito da insuficiência ou não da educação dos filhos de Ben.

Matt Ross ainda constrói uma gama de pequenas sutilezas que apenas engrandecem sua obra, como a metafórica escolha de cada filho ter um nome único (Bodevan, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja, Nai), nomes que apenas eles, em todo o Mundo, possuem, o que condensa de maneira categórica a visão que aquela família entende a respeito da sociedade. Além de sequências absolutamente esplendorosas, como o instante que, de maneira sensível, os filhos que até então liam seus livros passam para uma animada canção; E também a emocionante representação de Sweet Child o Mine.

Sutil, amoroso, humano e confortante, Capitão Fantástico é um filme tão simples em sua linguagem, mas rico em sua essência, desenvolvido com enorme delicadeza, dialogando sobre assuntos essencialmente indispensáveis, com uma, porque não, sensibilidade fantástica.

“Se você admite que não há esperança, então você garante que não haverá esperança. Se você admite que há um instinto para a liberdade, que existem oportunidades de mudar as coisas, então há uma possibilidade de que possa contribuir para a construção de um mundo melhor.” (Noam Chomsky)

★ ★ ★ ★ ★

Um comentário em “Capitão Fantástico (2016)”

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