2017, Críticas

O Rei do Show (2017)

The Greatest Showman
Direção: Michael Gracey
Roteiro: Jenny Bicks (roteiro), Bill Condon (roteiro)
Gênero: Musical/ Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 105 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Rebecca Ferguson, Zendaya, Fredric Lehne, Yahya Abdul-Mateen II, Paul Sparks, Diahann Carroll, Natasha Liu Bordizzo, Marko Caka, Skylar Dunn, Isaac Eshete

Sinopse: Celebra o nascimento do “show business” e conta as histórias de um visionário homem que, a partir do nada, criou um espetáculo que se tornou sensação ao redor do mundo.


CRÍTICA

Todo e qualquer obra de arte que se propõe, mesmo que minimamente, a discutir o papel da Arte já se revela uma substância de estudo e aprofundamento essencial para quem tanto vive e se saboreia com suas nuances e perspectivas criadas, ou seja, nossas leituras, vivências e experiências particulares. Procurar entender o que representa a Arte e como ela pode ou não servir como exposição de ideias ou reflexões é, na verdade, encará-la como algo único na visão de cada um. E isso a transforma numa partitura que será interpretada e saboreada de maneira ímpar.
Neste ponto de vista ouso dizer que O Rei do Show levanta duas camadas de discussões sobre o papel da Arte, uma mais evidente e outra mais oculta – em sua própria proposta. E começarei a discutir por essa última.

P.T. Barnum foi uma controversa e polêmica personalidade, possuindo em seu currículo diversas alegações das próprias falcatruas evidenciadas pelo longa, mas também de mal tratos a animais (algo meio intrínseco ao submundo do Circo em seus primórdios). Mas como de praxe, o longa-metragem tende a fantasiar a história e deixar tais pontos polêmicos de lado, trazendo em meu ponto de vista de maneira mais oculta uma discussão sobre qual de fato é o papel da Arte. Ela deve ser um retrato fiel da personalidade a quem se refere? Ou possui certa licença poética para construir e alterar a essência e/ou característica de uma história ou pessoa?

Quem me acompanha aqui no blog sabe que as mensagens do filme e o que representa como análise social e política sempre me encantam, pois como sempre frisei, esse é a Arte sendo explorada em sua máxima potência. Portanto, quando O Rei de Show, uma obra de fantasia e não um documentário, deixa de lado pontos polêmicos de seu protagonista e os substitui por discussões dramáticas, filosóficas e sociais importantíssimas, inserindo uma abordagem apaixonante e romancista, não posso deixar de entender que a Arte fez o seu papel: Pegou uma história controversa e a transformou em objeto de estudo e reflexão positiva para o espectador.

Umas das verdades que acompanha desde sempre o Ser Humano é o poder da intolerância. O desconhecido sempre é pior. O diferente merece ser julgado e maltratado. Sempre foi assim, e mesmo que diariamente – parte pequena da sociedade – lute pela igualdade e por cada um cuidar do seu próprio nariz, ainda presenciamos o preconceito enrustido contra homossexuais, transexuais, pobres, negros e qualquer outro segmento que não seja o majoritário. Dessa forma, a análise que o longa-metragem propõe, não se baseia nas visões do seu protagonista e sim na do diretor Michael Gracey – e notem como o crítico vivido pelo ator Paul Sparks é um interlocutor preciso de Gracey, ao contestar as atitudes, interpretações e reais alcances de P.T. Bauman.

Escrito por Bill Condon (diretor de A Bela e a Fera e roteirista dos musicais Chicago e Dreamgirls – Em Busca do Sonho) e Jenny Bicks (Rio 2), o musical acompanha P. T. Barnum (Hugh Jackman), um showman que tem uma tendência natural de enganar seu público, decide montar um circo na esperança de ficar famoso. Durante sua saga há ainda uma importante questão pendente em sua vida, uma paixão cega pela cantora Jenny Lind (Rebecca Ferguson).

Gracey emprega uma energia altamente vigorosa, fazendo disso seu grande trunfo, que se concilia com as belíssimas e deliciosas canções, compostas pelos vencedores do Oscar por La La Land (Benj Pasek e Justin Paul) e com coreografias simples, mas de dinâmica poderosa. Gracey ainda pincela as elipses que servem como passagem de tempo, como o momento da gravidez da personagem de Michelle Williams, de forma elegante e delicada. Percebam também como o diretor de fotografia Seamus McGarvey utiliza cores fortes e vibrantes, estampando aquele cenário quase como uma fábula teatral, enfatizando novamente o caráter fantasioso da obra – onde voltamos a discussão levantada no início desta análise.

Tematicamente, portanto, o Rei do Show consegue encaixar a discussão que se propõe com passagens poderosas e músicas intensas, de melodia e composição belíssimas, transformando uma controversa história numa fantasia quase cartunesca, mas essencialmente potente e densa em sua discussão. E se tem algo que uma verdadeira obra de arte sabe fazer é propor um debate, e O Rei do Show faz isso com um sentimento contagiante.

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