2016, Críticas

Silêncio (2016)

Silence
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese e Jay Cocks. Shusaku Endo (romance)
Gênero: Drama
Origem: Estados Unidos / Taiwan
Duração: 161 minutos
Tipo: Longa-metragem
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Liam Neeson, Issei Ogata, Shinya Tsukamoto, Yoshi Oida, Yosuke Kubozuka, Nana Komatsu, Béla Baptiste, Michié, Katsuo Nakamura, Ryo Kase, Motokatsu Suzuki, Yasushi Takada, Ten Miyazawa, Kaoru Endô, Diego Calderón, Shi Liang

Sinopse: No século XVII, dois padres jesuítas, Rodrigues e Garupe, viajam ao Japão a fim de localizar seu mentor Padre Ferreira, que dizem ter morrido enquanto vivia no Japão disseminando o cristianismo. Baseado no romance de Shusaku Endo.


CRÍTICA

Discutir sobre Fé sempre é algo complicado e que carece de enorme cuidado e delicadeza, afinal de contas, trata-se de algo abstrato e imensurável, podendo sintetizar como uma discussão sem certo ou errado e que poderia ser calculada ou simplesmente entendida de modo objetivo. A sua Fé, a forma como você contempla e sente sua existência, certamente é diferente dos demais – é a base da maneira como enxergo a vida neste aspecto: O formato como você lida e respeita as diferentes Fé e Crenças das pessoas ao seu redor.
É evidente que possuo uma opinião bem particular a respeito do equilíbrio entre a Religião, onde costumo classificar como a “Instituição”, e a Fé, sua forma de agir a respeito daquilo que você acredita. Essa discussão ampliaria-se numa vasta exposição de ideias de como enxergo o Mundo, mas não preciso expô-las, justamente pelo princípio em que foram construídas por mim: Simplesmente não importa como enxergo, classifico ou mensuro minha Fé e Crenças, já que esse é um assunto particular, não necessitando da chancela ou aprovação de ninguém, entenda-se, pessoa física ou institucional. Mas não absorvam tal afirmação como uma posição presunçosa e prepotente de alguém que se acha dono da razão, mas simplesmente nada do que me digam fará pensar o contrário, da mesma forma que não faço questão de estar certo ou fazer com que os demais pensem similar.
Condensando: Que cada pessoa acredite naquilo que toque profundamente seu coração e sua alma, e consequentemente a faça se sentir bem, sustentando, por fim, uma transformação numa pessoa melhor. Isso me faz abraçar todo e qualquer tipo de crença, raça, opção sexual, ideais políticos e etc, desde que não esbarrem na interferência na vida dos demais. Talvez seja por isso que este novo filme de Martin Scorsese, Silêncio, tenha, com o perdão do trocadilho, conversado tanto comigo, já que sua riqueza de ideias, profundidade na discussão que levanta e a genialidade cinematográfica de seu diretor o transformam num testamento sobre a Fé e seu indubitável caráter indiscutível.

Escrito por Scorsese, em parceria com Jay Cocks, baseado no romance de Shusaku Endo, Silêncio se passa no Século XVII, onde dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), viajam até o Japão em uma época onde o catolicismo foi banido. À procura do mentor deles, padre Ferreira (Liam Neeson) os jesuítas enfrentam a violência e perseguição de um governo que deseja expurgar todas as influências externas.

A riqueza do olhar de Scorsese reside justamente no equilíbrio entre a Fé e a natureza intempestiva da vida. Tais discussões me remeteram ao igualmente genial A Árvore da Vida, de Terrence Malick, que buscava estabelecer, sob meu ponto de vista, que independente da sua Fé ou Crença, a natureza da vida é que todas nossas experiências, sentimentos, alegrias e sofrimentos venham a tona. Resumindo, a ideia é a seguinte: Você rezar, ter Fé e naquele caso acreditar na “Graça”, não lhe isentará dos percalços da vida como a dor e a morte. Essa base traz-se aqui presente em Silêncio, já que desde os primeiros segundos a Fé do Padre Rodrigues – em magnífica atuação de Andrew Garfield (a melhor de sua carreira) – é testada, massacrada e pisoteada. Scorsese constrói sua discussão sobre Fé com base no sofrimento de seu protagonista dentro daquele cenário de perseguição – apesar de Scorsese escorregar ligeiramente em alguns pontos, ao caricaturar alguns japoneses como “vilões” – e a incorporação de Issei Ogata é destoante – afinal, por mais que tais atitudes evidentemente sejam abomináveis, o próprio cristianismo – Cruzadas – de maneira generalizada já sustentou atitudes igualmente deploráveis (e uma não justifica a outra): E que fique claro, em momento algum Scorsese toca nesse ponto, mas vilanizar excessivamente as atitudes japonesas me pareceu algo divergente da real essência do filme e me remeteu a esse paralelo.
Mas isso é apenas uma anedota na obra-prima Silêncio, já que o longa, em suas quase três horas de duração, pisoteia seu protagonista, e juntamente sua Fé, numa provação que apenas acreditar e entender a real essência de sua crença (fazer bem ao próximo), pode justificar a trajetória de Rodrigues e seu destino.

Percebam como Scorsese ainda permite fazer uso duma poesia narrativa belíssima, enclausurando seus personagens em suas próprias angústias, ao mesmo tempo em que concebe a eles o maior entendimento de sua Fé, justamente quando não precisam provar a ninguém, ou puramente falar e externar sobre ela. Essa abordagem de Scorsese me remete a um caráter muito comum em nosso dia a dia, em que não basta ter a sua Fé, você deve mostrá-la e até mesmo comprová-la aos demais: Algo que discordo frontalmente – e me parece que Scorsese, ao demonstrar que Rodrigues abraça plenamente a sabedoria de sua real existência quando aceita o que deve fazer para provocar o bem – sua missão, como propagador da Crença que julga sustentar, portanto, está completa.

E quando Padre Rodrigues percebe que mais do que fazer o sinal da cruz, e nutrir certa vaidade em não apostatar, onde pisar numa imagem, como modo de sobrevivência, não faria dele menos cristão, ou expurgaria sua Fé – afinal de contas Deus saberia e entenderia sua ações – e compreende seu dever em abraçar a real natureza da vida que está inserido e consequentemente ajudar as pessoas ao seu redor da melhor maneira possível, professa a real essência da Fé e conjuntamente com o silêncio… alcança a paz e a liberdade.

“Com o Silêncio, vem a Paz;
Com a Paz, vem a Liberdade;
Com a Liberdade, vem o Silêncio.”
(Trecho retirado da canção Illusion & Dream,
da banda Poets of The Fall)

★ ★ ★ ★ ★

2 comentários em “Silêncio (2016)”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s